Quando uma bomba centrífuga parte e não estabelece fluxo, a causa quase sempre está em uma destas nove origens: (1) bomba não escorvada — carcaça e linha de sucção sem líquido; (2) entrada de ar na sucção por juntas, gaxeta ou conexões; (3) válvula de pé travada ou com vedação comprometida; (4) NPSHa insuficiente — a instalação não fornece a pressão mínima que a bomba requer na entrada; (5) altura de sucção acima do que a pressão atmosférica local sustenta — o teto teórico é de ~10,3 m de coluna de água ao nível do mar, e o limite prático é bem menor; (6) filtro de sucção entupido, aumentando a perda de carga até inviabilizar a aspiração; (7) sentido de rotação invertido — comum após manutenção elétrica; (8) rotor ou anel de desgaste gasto, quebrado ou com folga excessiva; (9) gaxeta seca aspirando ar pela própria caixa de gaxetas. Em centrífugas como a FBCN, a partida correta exige carcaça e sucção cheias de líquido, sucção estanque, válvula de descarga inicialmente fechada e sentido de rotação conferido com o motor desacoplado. Nunca deixe a bomba girando a seco enquanto investiga.
Em resumo
- Centrífugas convencionais, como a FBCN, não são autoescorvantes: a carcaça e a linha de sucção precisam estar cheias de líquido antes da partida.
- Ao nível do mar, a atmosfera sustenta no máximo cerca de 10,3 m de coluna de água fria; descontadas perdas, pressão de vapor e NPSH requerido, o limite prático de sucção é bem menor.
- Com rotação invertida, a centrífuga ainda gera alguma pressão, bem abaixo da nominal; na FBCN, o sentido correto é horário visto do lado do acionamento, conferido com o motor desacoplado.
- Nunca opere a bomba a seco, nem por alguns segundos para testar: selo mecânico, gaxetas e anéis de desgaste dependem do líquido para lubrificação e refrigeração.
- A centrífuga radial parte com a descarga fechada, que é a condição de menor potência; bombas de deslocamento positivo, como FBE e FBEI, nunca partem com a descarga fechada.
1. Bomba não escorvada — a causa nº 1
Bombas centrífugas convencionais — incluindo toda a linha FBCN — não são autoescorvantes. O impelidor só transfere energia ao líquido quando a carcaça e a linha de sucção estão completamente cheias (até a válvula de pé, quando a instalação tiver uma). Se houver bolsa de ar dentro da carcaça, o rotor gira no ar e não gera a depressão necessária para puxar líquido do reservatório.
O sourcebook de bombeamento do Departamento de Energia dos EUA (DOE) com o Hydraulic Institute resume a regra: a maioria das centrífugas não é autoescorvante e, se perde a escorva, precisa ser cheia e ventilada antes de partir de novo.
A solução é o procedimento de escorva: com a bomba parada, abrir o respiro superior da carcaça e encher com o próprio líquido bombeado (em bomba de água, água limpa) até sair continuamente pelo respiro, sem bolhas. Em sucção afogada (bomba abaixo do nível do reservatório), basta abrir a válvula de bloqueio da sucção e o respiro até purgar todo o ar.
Em sucção negativa (bomba acima do nível do reservatório), é preciso manter a linha cheia — válvula de pé — ou um recurso auxiliar: tanque elevado de escorva por gravidade, bomba de vácuo ou ejetor. Em circuito de óleo térmico (linha FBOT), o enchimento segue o procedimento do circuito e é feito com o próprio óleo — nunca com água.
Sintoma característico de partida sem escorva: o motor parte e atinge a rotação nominal, a corrente fica abaixo do normal (o rotor move apenas ar) e o manômetro de descarga não indica pressão. Não espere para "ver se escorva": sem líquido, selo mecânico, gaxeta e anéis de desgaste ficam sem lubrificação e podem ser danificados em segundos — desligue imediatamente e escorve.
NUNCA opere a bomba a seco — nem por alguns segundos para testar. Uma centrífuga não é projetada para girar sem líquido: as faces do selo mecânico e a gaxeta superaquecem e os anéis de desgaste perdem o filme lubrificante. Na dúvida, pare, escorve e só então parta.
2. Entrada de ar na sucção
A linha de sucção trabalha abaixo da pressão atmosférica sempre que a bomba está acima do nível do reservatório (e, mesmo em sucção afogada, quando as perdas derrubam a pressão na entrada). Qualquer falha de vedação nesse trecho — junta de flange ressecada, parafusos frouxos, conexão roscada sem vedante, gaxeta da válvula de bloqueio mal apertada, trinca em luva de redução — funciona como um furo por onde o ar entra.
O ar dilui o líquido bombeado, reduz a vazão, gera ruído de borbulhamento e, em casos graves, impede totalmente a aspiração ou faz a bomba perder a escorva a cada parada.
Para localizar a entrada de ar há dois testes de campo seguros. Com a bomba parada, o hidrostático: encha a linha de sucção com água e aplique uma pressão baixa, dentro do limite dos componentes (a coluna de um reservatório elevado ou a própria rede costumam bastar), e procure gotejamento em juntas, conexões e na caixa de gaxetas.
Com a bomba funcionando e escorvada, cubra as juntas suspeitas com espuma (de barbear ou água com sabão): onde houver entrada de ar, a espuma é sugada e forma covinhas. Evite pressurizar a linha com ar comprimido — o ar armazena energia e, se uma junta ou tubo romper, a descompressão é violenta; ensaio pneumático só com procedimento aprovado.
A correção é trocar juntas e gaxetas, reapertar com o torque correto, refazer roscas com vedante compatível com o fluido (anaeróbico ou fita de PTFE) e substituir peças trincadas. Em sistemas críticos, especificar a sucção com conexões flangeadas, e não roscadas, reduz muito os pontos de falha.
3. Válvula de pé travada ou com vedação comprometida
A válvula de pé é instalada na extremidade inferior da tubulação de sucção, mergulhada no reservatório. Sua função é dupla: filtrar partículas grossas e — sobretudo — manter a coluna de líquido na linha de sucção quando a bomba para, evitando a perda da escorva. Se a válvula trava aberta (objeto preso entre o disco e a sede), a coluna esvazia toda vez que a bomba desliga, e a partida seguinte falha.
Se trava fechada (corrosão, sedimento), a bomba parte mas não consegue puxar o líquido.
Diagnóstico: depois de escorvar e parar a bomba, espere 10 a 15 minutos com ela desligada. Se a partida seguinte exigir nova escorva, a coluna está drenando — a válvula de pé é a suspeita principal, mas confirme que não há vazamento em juntas acima dela antes de trocá-la. Se a partida nunca se completa mesmo com escorva recente, a válvula pode estar travada fechada ou com o crivo obstruído — desmonte e inspecione.
Na especificação, prefira válvula de pé com crivo removível, que facilita a limpeza, e material compatível com o fluido e os sólidos presentes (ferro fundido, bronze e aço inox são as opções usuais).
4. NPSHa insuficiente e altura geométrica acima do limite físico
Nenhuma bomba "puxa" o líquido: é a pressão atmosférica sobre o reservatório que o empurra para dentro da sucção. Por isso existe um teto físico — cerca de 10,3 m de coluna de água ao nível do mar.
Na prática sobra bem menos, porque é preciso descontar a pressão de vapor do líquido, as perdas de carga da sucção e o NPSH requerido pela bomba: a Pumps & Systems, em artigo de aplicação de 2026, trata cerca de 7,6 m (25 pés) como fronteira prudente para água fria ao nível do mar — e ainda com margem de segurança.
Com água quente, fluidos voláteis ou altitude, o limite cai: em Brasília, a cerca de 1.170 m, a pressão atmosférica é de ~88 kPa e o teto teórico baixa para ~9 m.
O parâmetro que materializa esse limite é o NPSH (Net Positive Suction Head). Se o NPSH disponível na instalação (NPSHa) for menor que o requerido pela bomba (NPSHr, na curva do fabricante), a bomba cavita ou simplesmente não estabelece fluxo.
A margem não é um número fixo em metros: a ANSI/HI 9.6.1, do Hydraulic Institute, expressa a margem como razão entre NPSHa e o NPSH requerido e traz valores recomendados por aplicação (processo químico, petróleo, saneamento, serviços prediais, industrial geral, entre outras).
Na edição de 2024, a referência passou a ser o NPSHr informado pelo fabricante, que deve ser igual ou maior que o NPSH3 medido em ensaio — a condição em que a altura cai 3%, que não significa ausência de cavitação. Quando o NPSHa é insuficiente: rebaixar a bomba (sucção afogada), aumentar o diâmetro da tubulação de sucção, reduzir curvas e válvulas, resfriar o fluido se possível ou trocar por um modelo com NPSHr menor.
Um caso ligado ao nível que costuma passar despercebido é o vórtice: quando a superfície do líquido baixa demais sobre a entrada da sucção, forma-se um redemoinho que leva ar para a bomba — e, em casos severos, ela perde a escorva (o sourcebook DOE/HI descreve exatamente esse mecanismo). Se a bomba puxa bem com o tanque cheio e falha perto do nível mínimo, verifique a submergência da entrada nessa condição.
5. Filtro entupido e sentido de rotação invertido
O filtro de sucção entope aos poucos, conforme acumula sedimento, biofilme ou folhas (em captações de água superficial). O efeito é o aumento da perda de carga na sucção, que reduz o NPSHa até o ponto em que a bomba para de aspirar. Sintoma típico: a bomba opera normalmente por dias ou semanas, depois a vazão cai gradualmente e, por fim, ela deixa de puxar.
Diagnóstico: meça a pressão antes e depois do filtro e compare com a leitura do filtro limpo, registrada no comissionamento. Na sucção, cada 0,1 bar de perda consome cerca de 1 m de NPSHa (0,1 bar ≈ 1,02 m de coluna de água) — por isso o limite de entupimento de um filtro de sucção é bem menor que o de um filtro de descarga e deve ser definido a partir da margem de NPSH da instalação.
O sentido de rotação invertido é causa comum após manutenção elétrica: ao trocar o motor ou refazer a ligação do contator, duas das três fases podem ser invertidas, e o motor gira ao contrário. Uma centrífuga girando no sentido errado ainda gera alguma pressão — bem abaixo da nominal —, o que engana o diagnóstico: a vazão cai muito e surge ruído anormal.
Diagnóstico: compare o sentido real, observado pelo lado do acoplamento, com a seta da carcaça; na FBCN, o sentido correto é horário, visto do lado do acionamento (manual técnico FBCN). Solução: inverter duas fases na régua do motor — serviço de eletricista qualificado, com o circuito desenergizado e bloqueado. Conferir o giro com o motor desacoplado, antes de montar o acoplamento, é o procedimento usual de comissionamento, justamente para não girar a bomba ao contrário nem a seco.
6. Rotor desgastado e gaxeta seca aspirando ar
Um rotor desgastado por anos de operação — especialmente com sólidos em suspensão ou pH agressivo — perde eficiência nas bordas das pás, e o anel de desgaste perde a folga original. O resultado é a queda progressiva de pressão e vazão até o ponto em que a bomba não vence as perdas da instalação e parece "não puxar".
Na FBCN, o rotor é radial, de simples sucção, com anel de desgaste no lado de pressão (exceto nos tamanhos 25-150, 32-125 e 32-125.1, segundo o manual técnico). Diagnóstico: meça vazão e altura em um ponto conhecido e compare com a curva da bomba. Se, com escorva, rotação e sucção já confirmadas, o ponto medido ficar claramente abaixo da curva, o desgaste de rotor e anel é o suspeito provável — a confirmação vem da desmontagem, medindo as folgas.
Solução: substituir rotor e anel de desgaste por peças originais e investigar a causa raiz (abrasão, corrosão, cavitação anterior).
A gaxeta seca é uma causa de entrada de ar frequentemente esquecida. Em bombas com gaxeta (e não selo mecânico), a vedação depende de um pequeno gotejamento de líquido para lubrificar e refrigerar. Se a gaxeta foi apertada além do necessário, ou se a bomba ficou parada muito tempo e ressecou, a caixa de gaxetas passa a aspirar ar pela própria zona que deveria vedar — o efeito sobre a sucção é idêntico ao de um furo na linha.
Solução: reajustar a sobreposta aos poucos, com a bomba em operação, um quarto de volta por vez e alguns minutos entre ajustes, até restabelecer o gotejamento indicado pelo fabricante da bomba ou da gaxeta (o volume varia com diâmetro da luva, pressão e temperatura; gaxeta que não pinga está seca).
Onde o gotejamento não é aceitável, avalie o selo mecânico — na FBCN, o eixo tem luva de proteção na região de selagem e aceita gaxeta ou selo mecânico (manual técnico FBCN).
7. Procedimento correto de partida de uma centrífuga
Para evitar as nove causas acima na primeira partida e nas seguintes, a sequência usual de comissionamento de uma centrífuga radial, como a FBCN, é: (1) conferir o alinhamento bomba-motor com relógio comparador antes do acoplamento — desalinhamento causa vibração e desgaste de mancais; (2) conferir o sentido de rotação com o motor desacoplado, pela seta da carcaça; (3) acoplar bomba e motor e verificar a folga axial do acoplamento; (4) escorvar — abrir o respiro superior, encher carcaça e linha de sucção e fechar o respiro quando sair líquido sem bolhas; (5) abrir totalmente a válvula de sucção; (6) fechar a válvula de descarga; (7) partir o motor; (8) logo que o motor atingir a rotação nominal, abrir gradualmente a válvula de descarga até o ponto de operação — sem manter a bomba muito tempo com a descarga fechada, o que aquece o líquido; (9) verificar pressão de descarga, corrente do motor, temperatura dos mancais e ausência de vibração anormal.
A partida com descarga fechada vale para centrífugas radiais porque a potência absorvida é mínima com vazão zero, o que reduz o esforço elétrico no motor (sourcebook DOE/HI); em bombas axiais essa relação se inverte.
Atenção: em bombas de deslocamento positivo, como as de engrenagem (FBE e FBEI), a lógica é oposta — nunca partir com a descarga fechada. Com as válvulas a jusante fechadas, a pressão sobe até abrir a válvula de alívio, romper uma conexão ou travar o motor; o manual MAN001-10 da FBEI determina verificar que todas as válvulas estão totalmente abertas antes de ligar e nunca fechá-las com a bomba em funcionamento.
Se, após o procedimento completo, a bomba ainda não estabelece fluxo, envie à engenharia de aplicação da FB Bombas o modelo e os dados da plaqueta, o fluido e a temperatura, o arranjo da sucção (desenho ou foto) e as leituras disponíveis — corrente, pressões de sucção e descarga e vazão. Contato: comercial@fbbombas.com.br ou WhatsApp +55 11 97287-4837.


