1. O que é cavitação
Cavitação é um fenômeno hidráulico no qual bolhas de vapor se formam espontaneamente dentro do líquido bombeado quando a pressão local cai abaixo da pressão de vapor do fluido na temperatura de operação. Quando essas bolhas migram para regiões de maior pressão dentro da bomba (a zona de descarga), elas colapsam de forma violenta e assimétrica, gerando ondas de choque e microjatos de líquido com velocidades superiores a 100 m/s que impactam as superfícies metálicas.
O resultado é erosão progressiva do metal (chamada pitting ou cratering), vibração mecânica, ruído característico semelhante a pedras dentro da bomba, queda de vazão e pressão, e redução dramática da vida útil dos componentes internos — especialmente rotor, selo mecânico e mancais. Uma bomba operando em cavitação pode ter sua vida útil reduzida de anos para semanas.
No vocabulário de campo, "cavitar" é o verbo que descreve esse regime: uma bomba começa a cavitar quando a pressão na sucção cai abaixo da pressão de vapor do líquido, e para de cavitar quando essa condição é corrigida — reduzindo as perdas na sucção, baixando a temperatura do fluido ou diminuindo a rotação.
Em operação contínua de bomba industrial, cavitar é condição indesejável que exige investigação: na grande maioria dos casos aponta para instalação, seleção ou operação fora do previsto — nunca deve ser tratada como característica aceitável do sistema.
A bolha de cavitação não é uma bolha de ar: é vapor do próprio líquido, nucleado em microimpurezas e gases dissolvidos no instante em que a pressão local cruza a pressão de vapor. Ela nasce microscópica, cresce enquanto atravessa a zona de baixa pressão e implode em microssegundos ao reencontrar pressão maior.
Quando o colapso acontece junto a uma parede metálica, a implosão é assimétrica: o líquido atravessa o centro da bolha e forma o microjato que perfura a camada-limite e martela o metal — é esse mecanismo, repetido continuamente em alta frequência, que escava o pitting característico.
Dois detalhes práticos decorrem dessa física. Primeiro, nas bombas a cavitação é sempre um fenômeno de sucção: as bolhas se formam onde a pressão é mínima (olho do rotor na centrífuga, vão entre dentes na engrenagem) e colapsam logo adiante — por isso o dano aparece concentrado nessas regiões.
Segundo, entrada de ar não é cavitação: ar arrastado forma bolhas que comprimem e amortecem sem implodir, gerando sintomas parecidos (ruído, queda de vazão) com causa e correção diferentes — distinguir os dois é o primeiro passo de qualquer diagnóstico.
2. Como identificar cavitação no campo
A cavitação se manifesta por cinco sintomas identificáveis sem instrumentação sofisticada: (1) Ruído — som de brita ou martelamento metálico, audível a poucos metros da bomba; (2) Vibração — amplitude crescente, detectável com a mão no mancal; (3) Queda de performance — vazão e/ou pressão abaixo do especificado, intermitente ou progressiva; (4) Erosão visível — marcas de pitting na face de sucção do rotor (centrífugas) ou na face de sucção das engrenagens (bombas de engrenagem); (5) Falha prematura de selo mecânico — o selo perde vida útil por conta da vibração e instabilidade do filme líquido na face de vedação.
| Sintoma | Hipótese a verificar | Ação imediata |
|---|---|---|
| Ruído de "brita" ou martelamento metálico | Colapso de bolhas de vapor — NPSHa insuficiente na sucção | Verificar filtros e válvulas da sucção; recalcular o NPSHa da instalação |
| Vibração crescente no mancal | Colapso assimétrico das bolhas sobre o rotor ou engrenagens | Reduzir a rotação (se possível) e inspecionar a linha de sucção |
| Queda de vazão e/ou pressão | Vaporização parcial do fluido na entrada da bomba | Conferir temperatura do fluido e nível do reservatório de sucção |
| Pitting no rotor ou nas engrenagens | Cavitação prolongada — erosão por microjatos | Corrigir a causa raiz (NPSH, viscosidade × rotação) antes de trocar peças |
| Falha prematura do selo mecânico | Vibração e instabilidade do filme líquido na face de vedação | Verificar entrada de ar nas conexões e vedações da sucção |
3. As 7 causas reais de cavitação
Na experiência da engenharia de aplicação da FB Bombas, as causas de cavitação em instalações industriais se concentram em sete fatores recorrentes: (1) Altura geométrica de sucção excessiva — a bomba tenta aspirar líquido de uma altura maior do que a pressão atmosférica permite; (2) Perda de carga na tubulação de sucção — tubulação subdimensionada, excesso de curvas, válvulas parcialmente fechadas ou filtros sujos; (3) Temperatura do fluido acima do previsto — a pressão de vapor aumenta exponencialmente com a temperatura, reduzindo o NPSHa; (4) Fluido mais viscoso que o especificado — em bombas de engrenagem, a viscosidade excessiva impede o preenchimento completo da câmara entre dentes na rotação de operação; (5) Rotação acima da recomendada — especialmente crítico em bombas de engrenagem FBE com fluidos viscosos (ver tabela de viscosidade × RPM do manual MTEC-01/01); (6) Entrada de ar na sucção — juntas, gaxetas ou conexões com vedação comprometida permitem entrada de ar; (7) Vaporização parcial — fluidos voláteis ou próximos ao ponto de ebulição na temperatura de operação.
4. NPSH: o parâmetro que previne a cavitação
O NPSH (Net Positive Suction Head) é a ferramenta quantitativa para prevenir cavitação. O conceito se divide em dois valores: NPSHa (disponível) é a energia de pressão efetiva que a instalação fornece na entrada da bomba — depende da pressão atmosférica, altura geométrica, perdas de carga e pressão de vapor. NPSHr (requerido) é a pressão mínima que a bomba precisa na entrada para operar sem cavitação — esse valor é fornecido pelo fabricante para cada modelo e condição de operação.
A regra fundamental é: NPSHa deve ser SEMPRE superior ao NPSHr, com margem de segurança. Para bombas centrífugas FBCN, a FB Bombas recomenda margem mínima de 0,5 a 1,0 metros. Para bombas de engrenagem FBE com fluidos viscosos, a margem deve ser maior (1,0 a 1,5 metros) porque a perda de carga na sucção aumenta significativamente com a viscosidade.
A fórmula do NPSHa é: NPSHa = Pa ± Hz - Hf - Pv, onde Pa = pressão atmosférica (ou do tanque), Hz = altura geométrica (positiva se afogada, negativa se sucção), Hf = perdas de carga na tubulação de sucção, Pv = pressão de vapor do fluido na temperatura de operação.
Um exemplo numérico mostra o peso de cada termo. Instalação típica: água a 20 °C, tanque aberto ao nível do mar (Pa = 10,33 mca), bomba 2,5 m acima do nível do líquido (Hz = −2,5 m), perdas na sucção de 0,8 m e pressão de vapor de 0,24 mca pela tabela de vapor saturado. O NPSHa resulta em 6,79 m — folgado para um NPSHr de catálogo de 3,0 a 3,5 m.
Agora a mesma instalação com água a 80 °C: a pressão de vapor salta para 4,83 mca e o NPSHa despenca para 2,20 m — a bomba que operava com folga passa a cavitar sem que nada tenha mudado na tubulação. É por isso que temperatura é a variável mais traiçoeira do diagnóstico: o NPSHa não é uma propriedade da bomba, é uma propriedade da instalação numa condição de operação específica.
NPSHa(20 °C) = 10,33 − 2,5 − 0,8 − 0,24 = 6,79 m
NPSHa(80 °C) = 10,33 − 2,5 − 0,8 − 4,83 = 2,20 mExemplo: água 20 °C, tanque aberto ao nível do mar, sucção não afogada de 2,5 m, perdas de 0,8 m — vs a mesma instalação a 80 °C. Valores em coluna de água padrão (ρ = 1.000 kg/m³).
5. Cavitação em bombas de engrenagem vs centrífugas
As bombas centrífugas FBCN são mais sensíveis à cavitação do que as bombas de engrenagem FBE. Isso acontece porque na centrífuga, o líquido entra no centro do rotor a alta velocidade, e a queda de pressão na entrada do olho do rotor é abrupta — qualquer insuficiência de NPSH gera cavitação imediatamente.
Na bomba de engrenagem, o mecanismo é diferente: a cavitação ocorre quando o fluido viscoso não consegue preencher o espaço entre os dentes das engrenagens na velocidade de rotação. Por isso, em bombas FBE, a cavitação está diretamente relacionada à viscosidade: quanto mais viscoso o fluido, menor deve ser a rotação para permitir o preenchimento completo da câmara.
Dados práticos do manual FBE (MTEC-01/01): para fluidos com 30 a 250 SSU, a rotação máxima é 1.750 rpm (transmissão direta). Para 2.500 a 7.500 SSU, cai para 850 rpm. Para 10.000 a 50.000 SSU, fica entre 500 e 300 rpm (com redutor). Acima de 50.000 SSU, a rotação deve ser entre 300 e 150 rpm. Operar acima desses limites causa cavitação imediata, independentemente do NPSH disponível.
6. Cavitação hidráulica: o mesmo fenômeno além das bombas
Cavitação hidráulica é o nome genérico do fenômeno em qualquer sistema hidráulico — não é exclusividade de bombas. Onde houver líquido acelerando e pressão local caindo abaixo da pressão de vapor, há formação e colapso de bolhas: na vena contracta de válvulas operando parcialmente fechadas, na garganta de venturis e placas de orifício, em hélices navais e nos rotores de turbinas hidráulicas.
A física é idêntica à descrita em "O que é cavitação"; o que muda é apenas a geometria onde a queda de pressão acontece.
Na indústria hidrelétrica, a cavitação é um dos principais mecanismos de desgaste de turbinas Francis e Kaplan: as bolhas colapsam sobre as pás do rotor e no tubo de sucção, e o controle é feito no projeto da usina — a altura de instalação da turbina em relação ao nível de jusante (submergência) é definida para manter a pressão acima do limite de cavitação, critério expresso pelo coeficiente de Thoma (σ).
O paralelo com bombas é direto: a submergência da turbina cumpre o mesmo papel que o NPSHa da instalação.
Em plantas industriais, o ponto cego mais comum é a válvula de controle: uma válvula estrangulada logo antes da bomba derruba a pressão de sucção e fabrica uma cavitação "da instalação" que nenhuma troca de bomba resolve. Válvulas na linha de sucção devem operar totalmente abertas; o controle de vazão pertence à descarga.
7. Checklist de prevenção de cavitação — FB Bombas
Baseado na experiência de campo da FB Bombas com mais de 82 anos de operação industrial, este checklist cobre os pontos de verificação para prevenir cavitação: (1) Calcular NPSHa da instalação e comparar com NPSHr do catálogo — manter margem ≥ 0,5 m (centrífugas) ou ≥ 1,0 m (engrenagem com viscosos); (2) Dimensionar tubulação de sucção com velocidade ≤ 1,5 m/s para centrífugas e ≤ 0,5 m/s para engrenagem com viscosos; (3) Minimizar comprimento e acessórios na linha de sucção — cada curva 90° equivale a ~30 diâmetros de tubo reto em perda de carga; (4) Instalar a bomba o mais próximo possível do reservatório de sucção, preferencialmente abaixo do nível do líquido (sucção afogada); (5) Verificar que filtros de sucção estejam limpos e com área de passagem ≥ 3× a área da tubulação; (6) Controlar temperatura do fluido — se possível, resfriar antes da bomba; (7) Para bombas de engrenagem FBE: respeitar rigorosamente a tabela de rotação máxima por faixa de viscosidade; (8) Para bombas centrífugas FBCN: operar entre 0,15×Qot e 1,1×Qot (vazão ótima) — operação fora dessa faixa aumenta risco de cavitação e recirculação interna; (9) Verificar vedação de todas as conexões na linha de sucção — entrada de ar é causa frequente e difícil de diagnosticar; (10) Monitorar temperatura dos mancais durante a partida — temperatura acima de 90°C indica problemas que podem estar associados à cavitação (referência: manual FBEI, MAN001-10, procedimento de partida).
8. Quando consultar o engenheiro de aplicação
Se sua bomba já apresenta sintomas de cavitação, o primeiro passo é reduzir a rotação (se possível) e verificar a linha de sucção. Se os sintomas persistirem, a engenharia de aplicação da FB Bombas pode recalcular o NPSH da instalação e recomendar: redimensionamento da tubulação de sucção, mudança de modelo ou diâmetro da bomba, alteração da velocidade de operação, ou instalação de bomba booster na sucção. O contato é comercial@fbbombas.com.br ou WhatsApp +55 11 97287-4837.
