1. Biogás e biometano no Brasil: o que a regulação define em 2026
O biogás vem da digestão anaeróbia de resíduos orgânicos — vinhaça e outros resíduos agroindustriais, dejetos animais, resíduos de aterros sanitários e lodo de estações de tratamento de esgoto. Purificado até a especificação de combustível, passa a ser comercializado como biometano. Dois marcos organizam esse mercado. A Lei nº 13.576/2017 instituiu a Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio), na qual produtores e importadores certificados emitem Créditos de Descarbonização (CBIOs) conforme a Nota de Eficiência Energético-Ambiental calculada na RenovaCalc, ferramenta da ANP.
E a Resolução ANP nº 1.006/2026, publicada em agosto de 2026, unificou a especificação e o controle de qualidade do biometano de qualquer origem, substituindo as Resoluções 886/2022 (aterros e estações de esgoto) e 906/2022 (resíduos agrossilvopastoris e comerciais).
Para quem especifica bombas, a consequência é prática: a qualidade do gás resulta da purificação, não da bomba, mas as bombas sustentam as etapas líquidas que tornam a purificação possível — alimentação e recirculação do digestor, separação do digestato, lavagem do gás e aquecimento. Cada corrente precisa de dados próprios antes da seleção: composição, sólidos, viscosidade na temperatura real, vazão, pressão e classificação da área onde a bomba será instalada.
2. As três famílias de correntes de uma planta de biogás — separar o problema
A regra de engenharia mais útil é classificar as correntes pelas propriedades físicas, não pelo nome do resíduo. Tratar tudo como "efluente orgânico" leva a especificações erradas: o mesmo digestato pode ser uma pasta fibrosa antes do separador e um líquido turvo depois dele.
- Corrente 1 — bruta, com sólidos: chorume de aterro sem pré-tratamento, substrato e digestato com fibras, areia ou plásticos. Pede bomba construída para sólidos (cavidade progressiva, lóbulos, peristáltica ou centrífuga para sólidos). Fora da linha de catálogo da FB.
- Corrente 2 — líquida após separação: chorume pré-tratado, fração líquida do digestato, biofertilizante clarificado. Em geral aquosa; sólidos finos, pH, cloretos e H2S vêm da análise. Serviço de centrífuga FBCN quando a análise confirma líquido limpo ou turvo; sólidos em suspensão são avaliados pela FB caso a caso (MTEC-03/00, item 2.3).
- Corrente 3 — fluidos de processo e utilidades: água ou solução de lavagem do biogás, água de serviço e água quente de aquecimento (FBCN); glicerina, óleos e gorduras usados como cossubstrato ou subproduto (FBE); óleo térmico, quando existe aquecedor de fluido térmico (FBOT).
Atenção
Não use bomba de engrenagem em corrente com fibras, areia ou plásticos. Na FBE, o fluido é transportado nas cavidades entre os dentes e a carcaça, e é o engrenamento que impede o retorno para a sucção (catálogo FBE 2026, p.2); o manual MTEC-01/01 (item 2.3) pede consulta à FB sempre que o fluido tiver sólidos em suspensão.
3. FBE: glicerina, óleos, gorduras e outros fluidos viscosos
A FBE é uma bomba de engrenagens externas desenvolvida para fluidos viscosos (manual MTEC-01/01). Em plantas de biogás, esse perfil aparece nos cossubstratos e subprodutos que não são aquosos: glicerina, óleos vegetais, gorduras e resíduos oleosos adicionados ao digestor, desde que cheguem sem areia ou sólidos abrasivos. Correntes aquosas clarificadas, com viscosidade próxima à da água, são serviço de centrífuga (seção 4).
Meça a viscosidade na temperatura de bombeamento e confirme o tamanho na matriz do catálogo FBE 2026 (p.5). Por exemplo, 1.750 rpm entre 30 e 250 SSU está indicado para 1/8″, 1/4″, 1/2″, 3/4″, 1″ e 1″D. As faixas de 1.150 e 850 rpm e as rotações menores também têm listas próprias de modelos; não se deve estender uma faixa a toda a série. Para produtos que solidificam a frio, avalie a câmara de aquecimento e as condições de partida.
Materiais e vedação seguem a análise do fluido. O catálogo lista carcaça e tampas em ferro fundido ASTM A48 CL30, nodular ASTM A536 60-40-18, aço carbono ASTM A216 WCB e inox ASTM A743 CF8M, com eixos e engrenagens em aço SAE 1045 ou inox AISI 316L.
A vedação pode ser gaxeta, selo mecânico ou retentor; o selo padrão do manual é tipo 21, com faces de cerâmica × grafite e elastômero Viton (item 2.5), e deve ser revisto com o fabricante do selo quando houver H2S, metanol ou pH extremo. Para serviços em que não se admite vazamento — fluidos tóxicos, corrosivos ou inflamáveis —, o manual prevê vedação por acoplamento magnético (item 2.7).
4. FBCN: fração líquida clarificada, lavagem do biogás e utilidades
A FBCN é a centrífuga normalizada da FB, indicada no manual MTEC-03/00 para líquidos limpos ou turvos em aplicações que incluem saneamento e indústria química. Na planta de biogás, cobre a fração líquida já separada, a recirculação de água de lavagem do gás, a água de serviço e circuitos de água quente. Os dados gerais da série chegam a 2.200 m³/h e 135 m; são máximos da linha, não de cada modelo, e cada tamanho tem sua curva.
A purificação por lavagem com água ou com solução absorvente (como aminas) circula líquido entre torres e tanques. Pressão, vazão e composição da solução vêm do fornecedor da tecnologia de purificação; a bomba é selecionada para esse ponto, com materiais e elastômeros compatíveis com a solução e com o H2S e o CO2 que ela absorve.
O manual oferece critérios concretos para essas correntes: pressão máxima de sucção de 10 bar; vazão mínima de 0,1 a 0,15 vez a vazão ótima, conforme o tamanho, e máxima de 1,1 vez (Tabela 1); sobre-espessura de corrosão de 3,3 mm; carcaça em ferro fundido, aço carbono A216 WCB ou inox A743 CF8M; e arranjos de vedação por aplicação (item 10) — selagem com líquido externo (S1) para fluidos tóxicos, agressivos ou de mau odor, S2 para partículas sólidas ou pequenas fibras em suspensão e lavagem externa (S3) para partículas abrasivas ou tendência a cristalizar, os três até 105 °C, ou selo mecânico definido para a aplicação.
5. Aquecimento do processo: água quente com FBCN ou óleo térmico com FBOT
O digestor trabalha na faixa de temperatura definida pelo projeto do processo, e o sistema de aquecimento repõe as perdas térmicas com água quente (por exemplo, recuperada de motores de cogeração), vapor ou fluido térmico. O meio de aquecimento é decisão do projeto; a bomba acompanha essa decisão, e cada meio tem critérios próprios.
Em circuito de água quente, a seleção é de centrífuga para água (FBCN), e a vedação é escolhida pela temperatura real: com gaxeta e sem câmara de resfriamento, o manual MTEC-03/00 indica −50 a 105 °C; com selo mecânico, vale a recomendação do fabricante do selo.
Quando a planta tem aquecedor de fluido térmico — por exemplo, para fornecer calor ao refervedor de uma regeneração de amina —, a circulação é serviço da FBOT: centrífuga back pull-out com vedação por gaxetas de grafite e selo mecânico, sem refrigeração externa (catálogo FBOT 2026, p.2), limite de série de 350 °C e pressão máxima de recalque decrescente com a temperatura (Figura 1 do MTEC-16/00).
O catálogo exige fluido sem partículas abrasivas e sem materiais que ataquem os componentes da bomba.
6. Planta integrada biodiesel-biogás: glicerina, óleos e metanol
A glicerina bruta de uma planta integrada de biodiesel e biogás pode conter metanol, sais e sabões. Envie composição, concentração, viscosidade e temperatura do lote, além de pH e sólidos. A matriz de rotação do catálogo orienta a escolha da FBE; a compatibilidade de carcaça, engrenagens e vedação exige avaliar o conjunto desses dados, não apenas o pH.
O metanol residual ou recuperado entra na avaliação de inflamabilidade e na classificação de áreas da instalação. Defina a vedação com seus limites de pressão, temperatura e compatibilidade química; o manual FBE descreve acoplamento magnético como opção, cuja configuração e disponibilidade devem ser confirmadas. Isso não constitui garantia de ausência de vazamento em qualquer condição. Óleos e gorduras que solidificam a frio exigem avaliar o aquecimento da bomba e das linhas.
7. Onde a FB Bombas não é a escolha: correntes brutas com sólidos
As bombas de catálogo da FB não foram desenvolvidas para chorume bruto com plásticos e areia, substrato ou digestato com fibras longas nem lodo com sólidos grosseiros. Os manuais FBE e FBCN pedem consulta sempre que houver sólidos em suspensão, e o catálogo FBOT exclui fluidos com partículas abrasivas. Nessas correntes, as tecnologias usuais são as listadas abaixo, oferecidas por fabricantes especializados.
- Cavidade progressiva: rotor helicoidal metálico dentro de um estator elastomérico; transporta pastas com sólidos e fibras com pouca pulsação.
- Lóbulos rotativos: dois rotores que giram sem contato entre si e admitem sólidos moles e fibras.
- Peristáltica de mangueira: o fluido só toca o interior da mangueira; aplicada a lodos muito abrasivos e a dosagem, com troca periódica da mangueira.
- Centrífuga para sólidos (rotor aberto, de vórtice ou com triturador): passagem livre para sólidos em correntes de baixa viscosidade.
Nota de engenharia
Identifique o separador ou pré-tratamento e caracterize a corrente que realmente chega à bomba. A clarificação não comprova, sozinha, a compatibilidade: sólidos remanescentes, química, viscosidade e temperatura definem se a aplicação cabe na linha FB ou exige outra tecnologia.
8. Tabela de seleção por aplicação na cadeia biogás-biometano
A tabela cruza os pontos de bombeamento mais comuns com o dado que precisa ser medido e com a tecnologia indicada. Não há faixa de viscosidade ou de H2S válida para todas as plantas: os valores saem da análise do fluido de cada projeto.
| Ponto de bombeamento | O que medir antes da seleção | Indicação |
|---|---|---|
| Extração de chorume bruto em aterro | Sólidos, areia, plásticos, pH | Tecnologia para sólidos (fora da linha FB de catálogo) |
| Substrato e digestato brutos | Teor de sólidos, fibras, viscosidade aparente | Cavidade progressiva, lóbulos ou centrífuga para sólidos (fora da linha FB) |
| Chorume pré-tratado e fração líquida do digestato | Sólidos finos, pH, cloretos, H2S, temperatura | FBCN com vedação S2/S3 ou selo mecânico; material pela análise; sólidos sob consulta |
| Biofertilizante líquido clarificado | Viscosidade e sólidos da amostra | FBCN se aquoso; FBE se viscoso e sem abrasivos |
| Água ou solução de lavagem do biogás | Composição da solução, pressão e vazão do processo | FBCN com materiais e elastômeros compatíveis |
| Glicerina, óleos e gorduras | Viscosidade na temperatura de bombeamento, pH, metanol | FBE com rotação pela viscosidade (catálogo p.5); câmara de aquecimento se solidifica |
| Água quente de aquecimento do digestor | Temperatura máxima e pressão do circuito | FBCN; vedação escolhida pela temperatura (MTEC-03/00) |
| Circuito de óleo térmico, quando existe | Fluido, temperatura e pressão do circuito | FBOT — série até 350 °C; recalque limitado pela Figura 1 do MTEC-16/00 |
9. RenovaBio, especificação ANP do biometano e áreas classificadas
No RenovaBio, a avaliação do ciclo de vida do biocombustível utiliza os dados do produtor na RenovaCalc da ANP. A bomba não recebe certificação por esse processo. Para avaliar sua contribuição ao consumo da planta, registre vazão, altura, potência elétrica e horas em cada regime; compare o ponto de operação com a curva e simule controle de rotação quando a demanda varia. A economia depende do sistema e deve ser medida.
Especificação do gás: a Resolução ANP nº 1.006/2026 define a especificação e o controle de qualidade do biometano; o atendimento depende da purificação, das análises e do plano de controle do produtor. As bombas de lavagem do gás fazem parte dessa etapa e devem manter o ponto de operação definido pelo fornecedor da purificação.
Áreas classificadas: a zona de cada ambiente sai do estudo de classificação de áreas (ABNT NBR IEC 60079-10-1). No Brasil, equipamento elétrico para atmosfera explosiva — motor, painel, instrumentos — precisa de certificação de conformidade do Inmetro (Portaria Inmetro nº 115/2022).
Quando o projeto especifica motor Ex, o conjunto FB é cotado com o motor certificado pelo fabricante do motor; itens mecânicos, como o protetor de acoplamento em material anti-centelhante previsto como opção nos manuais FB, são definidos na mesma consulta.



